segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ausência (Carlos Drummond de Andrade)


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

A um ausente (Carlos Drummond de Andrade)


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Destruição (Carlos Drummond de Andrade)



Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Olá, estranho! (by Ginger)



Olá estranho, chegou bem na hora
Procuro o seu rosto na multidão
Ou ali fora
Olá estranho, não é hora de partir?
Ver aquela foto se apagando, prestes a cair?
Os brinquedos se perderam
Os dentes de leite caíram
Houve acidentes com arranhões
E outras coisas que sumiram
Boletins foram mostrados, e uma vez adoeci
mas nada que eu não possa dizer que venci
Olá estranho, para você guardei um lugar
E não parece estranho...?
Agora que não vi você chegar!

Bye bye (?) Yuki...

Não, ele não morreu.
Ontem, como em qualquer outro dia, eu fechei a porta do meu quarto, olhei a água e comida do Yuki, a espiga de milho, estava tudo lá, me despedi dele e saí...
Fechei o portão, fiz o mesmo com o Yue e fui almoçar na casa do meu namorado.
Quando cheguei em casa tudo parecia normal, resolvemos levar o Yue pra uma volta, mas antes disso fui trocar de roupa, quando cheguei na lavanderia o Yuki não veio correndo na minha direção.
Procurei por ali e nada. Procurei pelo quintal e nada. Procurei no jardim, nada.
Soltei o Yue pra procurar por ele, nada.
Procurei no meu quarto, nada.
Banheiros, nada.
Quintal dos fundos, nada.
Quintal dos vizinhos, nada.
Suspeito que ele tenha sido roubado, não seria a primeira vez que um bichinho some da minha casa. Mas acho que polícia não ligaria muito pro caso do meu coelho desaparecido..
Ainda está tudo no lugar, como se ele ainda estivesse lá, reluto em pensar que ele não volta, ou apenas está muito bem escondido.