sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A moral estóica...


De acordo com Jean Brun, o estoicismo foi a escola fundada por Zenão de Cicio em III a.C. em Atenas. Dividida em três fases: estoicismo antigo, estoicismo médio e estoicismo imperial.
Do estoicismo antigo temos três grandes nomes: Zenão de Cicio, Cleanto e Crisipo. Do estoicismo médio, onde o sistema perde seu primeiro rigor e começa a latinizar-se, temos: Diógenes, o Babilônico, Antipatro de Tarso, Panício de Rodes e Possidônio de Apameia. Já no estoicismo imperial, essencialmente romano, a lógica e a física saem de cena, deixando os filósofos livres para se concentrarem na moral, principais filósofos: Sêneca, Musófio Rufo, Epiteto e Marco Aurélio.
“Viver de acordo com a natureza.” (CLEANTO apud BRUN, 1986, p.76)
Eis o principio básico do estoicismo. Segundo o qual a felicidade é o desenvolvimento harmonioso da vida, que somente é possível se vivermos de acordo com a natureza, já que é ela que determina quem somos e como agimos. Para os estóicos a natureza humana forma um todo com a natureza e o universo. Os homens formam uma só comunidade de iguais por principio, discutem, aprendem, vivem com a convicção de que suas ações se integram num mesmo modo de ser, de individuo para individuo e destes para o Todo.
É parte do homem seguir o curso na natureza usando a razão, pois a razão é um atributo derivado do universo, obedecendo-a estamos mais perto da Virtude e do Bem supremo.
Segundo os estóicos, podemos dividir as coisas em:
• Bens: reflexão, justiça, coragem, sabedoria, etc.
• Males: irreflexão, injustiça, covardia, etc.
• Indiferentes (aquilo que não é útil ou nocivo, mas pode ser usado tanto para um quanto para outro): vida, morte, saúde, doença, prazer, dor, etc.
Entre os bens, existem os bens-fins, que são fins em si mesmos, como por exemplo: a generosidade, liberdade, plenitude; e os fins-meios, que são formas de chegar à virtude, por exemplo: amigos. A virtude é o telos do estoicismo e pode ser considerada tanto um bem-fim como um bem - meio. Os bens devem ser sempre buscados enquanto os males devem ser sempre evitados. Já os indiferentes, são aquilo que não nos causa nem aversão nem desejo ou aquilo que nos causa desejo ou aversão sem que se deva mais a isso do que aquilo, os indiferentes podem ser usados tanto para alcançar a felicidade quanto para causar infelicidade.
A virtude é, segundo Cleanto, um saber que pode ser ensinado e quem o possui/aprende jamais a perde. Porém, para Crisipo, pode-se perder a virtude por melancolia ou embriaguez, entretanto, um homem virtuoso jamais ficaria bêbado ou perderia a razão.
Se a virtude é a presença do bem, podemos considerar virtudes: a reflexão, justiça, sabedoria, etc. Além dessas, os estóicos acrescentam à física e a dialética. A física, porque para viver de acordo com a natureza é preciso procurar o ponto de partida em todo o universo e em como ele é ordenado, ninguém pode julgar os bens e os males sem conhecer toda razão de ser da natureza, sem saber se há ou não um acordo entre a natureza do homem e do universo. A dialética é também uma virtude, pois “possui um método para que não demos nosso assentimento a falso e não sejamos enganados por uma verossimilhança capciosa (...), sem essa arte qualquer pessoa pode ser desviada do caminho da verdade e induzida em erro.” (CÍCERO apud BRUN, 1986, p.79)
Ao contrário de Epicuro, para quem a física era um processo de explicação que tem por finalidade desmistificar a natureza, de modo a permitir ao homem viver na calma e na paz, para os estóicos a física é sabedoria e não um modo de ser chegar lá.
A virtude é una (é virtude em si e não por receio ou esperança de qualquer coisa exterior, não existe meio termo entre virtude e vício), ela é um ser vivo que existe mediante a alma racional, é o resultado da harmonia do gênio de cada um com a vontade daquele que organiza o todo.
Enquanto a virtude é harmonia com a natureza, a paixão é o contrário. Para Crisipo, “a paixão é um movimento irracional da alma à margem da natureza, ou uma tendência tirânica”.(CRISIPO apud BRUN, 1986, p. 81)
Segundo Paulo Silveira, para Crisipo, as paixões surgem de uma opinião recente, o que significa que uma paixão suscitada por uma opinião recente pode iniciar uma doença. Apesar de ninguém nascer doente, algumas pessoas podem ter predisposição para determinadas paixões.
Apesar da tentativa de Crisipo de procurar a origem das paixões, o estoicismo não se empenhou muito na procura pelas suas origens, ele apenas constatou que os homens são apaixonados e insensatos e procurou uma sabedoria que fosse uma reconciliação com o mundo e com os homens.
São quatro as paixões fundamentais:
• Angústia: mal presente que deve ser evitado
• Desejo: atribuição a algo bom em um estado futuro que deve ser buscado
• Medo: apreensão de um mal futuro que deve ser evitado
• Prazer: atribuição de algo bom ao presente que deve ser buscado
Todas as outras emoções derivam dessas quatro. Por exemplo, da dor derivam ciúmes, arrependimento, luto.
De acordo com Gazolla, a paixão é essencialmente desatino, loucura, originada por um erro de julgamento, uma falsa opinião, adesão indevida a uma representação falsa, não é obra dos deuses mas dos homens, uma doença intelectual. São movimentos alógicos da alma humana, contrárias a natureza, tendências excessivas, desmesuradas.
Esses erros de julgamento se devem a cultura e as leis do homem.
Segundo Rachel Gazola:
“São estabelecidas a partir não só a partir da compleição física, mas também como fenômenos biológicos e lógicos, confirmando a unidade entre as três partes da filosofia: a física, a ética e a lógica. Ao falar das paixões como fenômenos biológicos, aparentados com os mesmos fatos observados pela medicina, Zenão descreve-as como dilatações ou contrações do pneuma, reações da bile, ebulição do sangue e outras coisa tipicamente médicas.” (RACHEL GAZOLA, 1999, p.136)
As paixões em si não são perturbadoras, algumas tem relação com a própria constituição ser (amar, odiar, ter desejos), o que perturba a alma é o descontrole que elas podem causar. Existem paixões boas (eupatheia) que se permitem acompanhar pela razão, inclinação que saindo do hêgemonikon, continuam controladas por ele, tais como: a vontade racional (boulesis), a alegria (chara), a prevenção.
Desejar o outro que se ama não é uma paixão a ser extirpada, desejar ter amigos também não, mas desejar de maneira desmedida sim, pois os juízos estarão perturbados para uma escolha moral.
Segundo Brun, a ataraxia tão procurada pelos estóicos não é a ausência de paixões, mas sim a profilaxia/prevenção contra a desmedida, pois as paixões desmedidas nos transportam para uma longa cadeia de males progressivos, cujo final não podemos prever. Segundo a filosofia estóica, cada paixão tem seu tempo certo, porém afasta-se depois de um longo período, e ainda assim a dificuldade de sair do seu domínio é imensa.
Um homem submetido à escravidão de uma paixão não pode escolher, portanto está afastado da escolha para a ação moral, podendo escolher apenas de modo viciado. Ele perde-se no tempo agitado das paixões da alma, permanecendo servo da memória e da esperança, do passado e do futuro.
Cada emoção é um impulso e cada impulso uma condição necessária para a ação. Segundo Crisipo, cada emoção é simplesmente uma crença. Os impulsos são eventos psicológicos que tem como conseqüência a ação, cada ação é iniciada nas impressões imaginadas, ou seja, sintetizam uma descrição de um particular, determina estados de acontecimentos com uma atitude avaliativa perante o estado de acontecimento e leva a uma ação imediata. É causalmente suficiente, imediatamente antecedente, é uma motivação psicológica de uma ação intencional.
Segundo Aristóteles, os homens estão sujeitos ao acaso e devem seguir norteados pelo intelecto. Porém, segundo os estóicos, não há desejos, enganos, deslizes, acasos se o homem entra em compasso com a natureza.
O que os estóicos realmente buscam não é o fim de todas as paixões, mas sim uma forma de controlá-las e isso é apenas possível controlando os impulsos, tentando estar sempre no controle de tal forma que o aleatório não o atinja.
Segundo Crisipo, “o mal não só é nocivo como é necessário à beleza do mundo e não é bom suprimi-lo” (CRISIPO apud BRUN, 1986, p.81-82), ou seja, o mal é necessário para que exista uma subida para o bem. Sem o mal causado pelas paixões não haveria como os estóicos traçarem o caminho para a virtude.
Enquanto grande parte dos humanos luta contra as paixões, o sábio estóico não é um apaixonado, pois sabe julgar sabiamente, vivendo de acordo com a razão natural. Ele já atingiu a ataraxia e este em pleno controla de si mesmo, de modo que eventos aleatórios nunca o perturbarão.
Um sábio entende que quando uma pessoa nos irrita, não é realmente ela que nos irrita, mas nossa opinião acerca dela e por isso não devemos nos deixar levar pela nossa imaginação, ela não nos permite ver onde se encontram os verdadeiros perigos. Segundo Marco Aurélio, “rejeita a opinião e será salvo”. (MARCO AURÉLIO apud BRUN, 1986, p.85)
O apaixonado, por outro lado, age como uma criança cujo juízo ainda não está maduro, segundo Descartes, é preciso destruir a “criança”, ou seja, aquela parte humana que não sabe viver e que não tem opiniões sãs, pois é culpa dela termos preconceitos, “temos preconceitos devido a termos sido crianças antes de sermos homens” (BRUN, 1986, p.84). Nossos desejos, opiniões, inclinações, aversões e ações dependem apenas de nós e é justamente por isso que os estóicos buscam o controle.
O sábio estóico não tem emoções, tem eupatheia (boas emoções), seus impulsos consistem em episódios de sabedoria, a virtude é um impulso que resulta em alegria (chara), a futura virtude é a vontade ou volição (boulesis), evitar o vicio futuro é ter cuidado, porém não existem impulsos que resultem em dor, pois o sábio não conhece a dor, vive segundo a natureza, é inocente, sem compaixão, mas sociável. Eles sabem como substituir as emoções por escolhas, que fazem baseados nos indiferentes a sua volta, é a partir dessa consideração dos indiferentes que o sábio reconhece a coisa virtuosa a fazer e faz.
Ao contrário do que se poderia pensar, o sábio pensa pouco na virtude, ele nunca deve pensar que as coisas ao seu redor são boas, mas deve ser extremamente sensível a respeito do valor das coisas ao seu redor, e agir de acordo com a distribuição dos indiferentes no mundo. Mesmo sem pensar na virtude, cada ato do sábio é um ato de virtude.
Existem dois modelos de comportamento criados pelos estóicos que um sábio poderia seguir, um é o modelo dos indiferentes, citado acima, no qual a ação dos sábios são totalmente guiadas pela sua consideração dos indiferentes. E o modelo de deliberação salva virtute, onde se deve ir sempre conforme a virtude, ou quando as coisas vão de acordo com a natureza deve-se escolhê-las, desde que natureza e virtude nunca entrem em conflito.
Ambos, sábios e não-sábios sabem o que significa tratar uma coisa com indiferença e são capazes de entender que a felicidade ou infelicidade não estão ligadas a certas coisas, como um jarro de cerâmica. Epíteto sugere que devemos tratar as coisas como um jarro de cerâmica, a fim de aprendermos a tratar as coisas com indiferença.
Apesar do caminho tão bem traçado para a sabedoria, nunca existiram de fato sábios estóicos. A sabedoria é, na prática, inacessível para o homem, ele pode apenas aproximar-se dela. Os estóicos foram os primeiros a se dar conta disso:
“Vejo homens que proferem máximas estóicas, mas não vejo o Estóico. Mostra-me, pois, um estóico, só peço um. Um estóico, isto é, um homem que na doença se sinta feliz, que morrendo se sente feliz, que desprezado e caluniado se sente feliz! Se não podes mostrar este estóico perfeito e acabado, ao menos mostra-me um que o comece a ser. Não desenganes um velho como eu, desse espetáculo que confesso, ainda não pude desfrutar. ” (EPITETO apud BRUN, 1986, p.90)
Mesmo sendo impossível alcançar a virtude absoluta, existe ainda uma espécie de virtude humana, que não é sabedoria ou saber absoluto, mas que é prudência e reflexão racional.
O sábio estóico não é somente um cidadão do país onde nasceu, é um cidadão do mundo, pois cabe a ele usar toda sua sabedoria para ajudar ao maior número de pessoas possíveis. O destino é para os estóicos causa entrelaçante, uma vez que todos os acontecimentos estão ligados entre si, deve acontecer o mesmo entre os homens, essa idéia é chamada de cosmopolitismo. Os estóicos entendem que o que não é útil ao enxame não o é também para a abelha. Isso fez com que vários deles se envolvem com a política na ultima fase do estoicismo, Sêneca foi advogado e preceptor de Nero, Cícero foi também advogado e Marco Aurélio, imperador romano. Porém, parece que os estóicos gregos nunca tiveram grande interesse na política, nenhum deles se envolveu.
Outra diferença entre os estóicos romanos e os gregos é que os romanos afirmam as teses fundamentais dos gregos e mostram pela vivência reflexiva o melhor modo de reconhecer a escolha a ser feita em dada circunstância, escrevendo textos técnico-práticos, dando mais importância a moral do que a lógica ou a física. Os romanos foram os verdadeiros estóicos no sentido que hoje se tem da palavra: heróicos, altivos.
O determinismo é outra característica da filosofia estóica. O universo é finito, existem estados não necessários ou infinitos, não existem causas sem efeito e os acidentes são parte da ordem natural das coisas. Ainda segundo o determinismo, tudo na vida esta pré-determinado, e por isso as reflexões são tão importantes, pois elas nos ajudam a aceitar o destino com coragem, coisas como a morte, perda. Essas coisas que atormentam o homem não permitem que ele viva.
“Muitos há que andam miseravelmente à deriva entre o medo da morte e os tormentos da vida, sem querer viver nem saber morrer.” (SÊNECA,2004, carta 4, p.8)
O estoicismo ensina como devemos agir diante das mais diversas situações. Como Sêneca escreve:
"A filosofia não é uma habilidade para exibir em público, não se destina a servir de espetáculo; a filosofia não consiste em palavras, mas em ações. O seu fim não consiste em fazer-nos passar o tempo com alguma distração, nem em libertar o ócio do tédio. O objetivo da filosofia consiste em dar forma e estrutura à nossa alma, em ensinar-nos um rumo na vida, em orientar os nossos atos, em apontar-nos o que devemos fazer ou pôr de lado, em sentar-se ao leme e fixar a rota de quem flutua à deriva entre escolhos." (SÊNECA, 2004, carta 16, p.55)
A morte como principal atormentador do homem é vista pelos estóicos como uma operação da natureza, algo que não deve ser temida, pois é uma dissolução a partir da qual as coisas nascerão. Ela pode ser vista também como uma forma de deixar a vida quando sofremos de alguma doença ou quando as circunstâncias de acordo com a natureza que nos cercam não estão ao nosso favor, se há muitas delas em nossa volta é razoável continuar vivo se não há, morrer.
Segundo os estóicos, não há porque temer a morte, pois não se deve esperar nada do futuro, uma pessoa que teme a morte tem esperança, espera do futuro algo que não tem no presente, é um apaixonado, tornando-se escravo do futuro, da esperança.
“Se queres uma vida agradável deixa de preocupar-te com ela! Nenhum objeto dá bem-estar ao seu possuidor senão quando este está preparado para ficar sem ele; e nenhuma coisa mais facilmente podemos perder do que aquela que é irrecuperável depois de perdida.” (SÊNECA, 2004, carta 4, p.8)

From: meu tcc...

"O método estóico de enfrentar as necessidades suprimindo os desejos equivale a cortar os pés para não precisar de sapatos"
Swift, Jonathan --> prudência não é besteira...
From: gatocomvertigens.blogs.sapo.pt/239921.html

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